O uso da aspirina na prevenção de tromboses venosas

Quem não conhece um hematologista que, furtivamente, tomou 100 mg de aspirina antes de uma viagem intercontinental para prevenção de tromboses venosas? Até recentemente, a mera sugestão de uso de aspirina para a prevenção de uma TVP poderia ser considerada uma falácia. Pois bem: estes tempos podem estar chegando ao fim, a partir de um estudo publicado em Maio de 2012 no New England Journal of Medicine.

Pacientes que terminam os 6 meses protocolares de anticoagulação por uma TVP ou TEP espontâneos representam um grupo desafiador, já que o risco de trombose recorrente é de difícil avaliação, e cerca de 30 a 50% terão nova trombose em até 5 anos. O uso prolongado (além de 6 meses) de anticoagulantes orais nestes pacientes reduz o risco destas tromboses em 64% a 80% em relação ao placebo. No entanto, a variabilidade individual do risco trombótico e o risco hemorrágico deste tratamento não justificam a adoção universal deste tratamento. Um estudo publicado no NEJM em Maio de 2012 traz um novo elemento para esta contenda. Becattini e colaboradores randomizaram 402 pacientes com TVP/TEP espontâneos que haviam completado a anticoagulação, para o uso de placebo ou de aspirina na dose de 100 mg ao dia por 2 anos. Os autores demonstraram uma redução de cerca de 40% no risco de trombose venosa recorrente, sem aumento detectável no risco hemorrágico. A redução significativa no risco trombótico pela aspirina confirma achados anteriores, e levanta a questão sobre o papel deste agente após o término da anticoagulação oral. Vale lembrar que o benefício da aspirina é muito inferior ao dos anticoagulantes orais, não se discutindo seu uso no lugar dos anticoagulantes, mas sim como extensão do tratamento!

Em um momento em que muitos novos anticoagulantes chegam ao mercado, e no qual a possibilidade de uso prolongado de tromboprofilaxia para pacientes com trombose venosa será certamente discutida, a aspirina surge como possível alternativa contra a qual os novos agentes podem ser testados, em uma disputa talvez mais “justa”que contra o placebo…

Disponível para assinantes em: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1114238

Por Erich de Paula

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