A pergunta definitiva no tromboembolismo venoso

A descoberta de trombofilias hereditárias de alta prevalência como o fator V Leiden no final do século XX trouxe a impressão que tínhamos finalmente em mãos ferramentas capazes de classificar nossos pacientes quanto ao risco de novos eventos trombóticos. Passado o entusiasmo inicial, grandes estudos prospectivos mostraram que a presença destas trombofilias não implicava necessariamente em risco aumentado de novas tromboses, em comparação a outros pacientes com TVP/TEP sem estas alterações. Cerca de 25% a 30% dos pacientes com TEV apresentarão uma nova trombose em até 5 anos. Na medida em que o tempo padrão de anticoagulação é de 6 meses, a ocorrência destas recorrências é aceita como inexorável, diante dos riscos injustificáveis da anticoagulação definitiva para todos, e de nossa incapacidade em discriminar estes 25-30% dos pacientes dos demais. Neste contexto, um estudo publicado neste ano no Journal of Thrombosis and Hemostasis (http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1538-7836.2012.04735.x/abstract) (para assinantes) apresenta uma nova ferramenta para estratificação de risco trombótico que pode nos auxiliar na decisão sobre a extensão ou não da anticoagulação.

Em tempos de surgimento de novos anticoagulantes, mais convenientes e acessíveis que a Varfarina, a avaliação correta do risco trombótico torna-se ainda mais importante, tanto para prevenir a iatrogenia de tratamentos desnecessários, quanto para evitar que pacientes que possam se beneficiar destes recursos sejam privados dos mesmos. O escore proposto no estudo, intitulado DASH, utiliza como parâmetros para estratificação de risco a dosagem de D-Dímeros (+2 pontos para valores anormais, dosados após o término da anticoagulação), a idade (+1 ponto para idade £ 50 anos no momento da trombose), o Sexo do paciente (+1 ponto para sexo masculino), e o uso de Hormônios (-2 pontos se a trombose inicial ocorreu durante o uso de estrógenos) (D+2A+1S+1H-2). Pacientes com escore £ 0 apresentaram risco cumulativo de TEV recorrente de 9,5% em cinco anos, comparado a 61,3% se o escore fosse = 4.

Escores como o DASH auxiliam a tomada de decisões ao subsidiar impressões clínicas que envolvem conhecimento técnico sobre o tratamento de determinada condição, e a sensibilidade para avaliação individual da equação risco:benefício em cada paciente. Some-se a isso tudo, a importância da percepção do desejo do paciente nesta equação. Assim, mais do que uma ferramenta fechada para tomada de decisões, o escore DASH vem para complementar o rol de ferramentas que nos auxiliam a responder a pergunta definitiva no tratamento de um paciente com TEV: o que fazer após os 6 meses iniciais de anticoagulação.

Por Erich de Paula

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