Linfoma não-Hodgkin primário de mediastino: a cura é possível?

O tratamento das neoplasias sofreu grandes avanços nas últimas décadas, com o advento de compostos com ação específica contra células neoplásicas. Um exemplo destas drogas é o Rituximab, usado desde o início dos anos 2000 para tratamento do linfoma difuso de grandes células, e que elevou em 20-40% as taxas de resposta quando associado ao tratamento convencional. Este benefício, porém, não se estendeu para algun subtipos do linfoma difuso de grandes células, como o linfoma primário de mediastino. Nesta variante, mais agressiva e com perfil genético distinto, as respostas iniciais ao tratamento são inferiores a 70%, mesmo na era pós-Rituximab, às custas do emprego de radioterapia (associada a considerável toxicidade). Neste sentido são animadores os resultados publicados em artigo recente do The New England Journal of Medicine (http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1214561 para assinantes).

Neste estudo não comparativo (apenas um grupo foi tratado com a quimioterapia experimental) pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer dos EUA administraram um regime quimioterápico denominado R-DA-EPOCH, sem a necessidade de radioterapia, a 51 pacientes com idade média de 30 anos, sendo mais de 60% portadores de tumores com diâmetro superior a 10 cm (indicando grave comprometimento). Este regime quimioterápico, desenvolvido inicialmente para tratamento de linfomas agressivos, faz uso de Rituximab associado a uma combinação de drogas tradicionais por 6 a 8 ciclos. O diferencial deste esquema é que, a cada novo ciclo, as doses das drogas são aumentadas ou diminuídas conforme a toxicidade registrada no ciclo anterior, permitindo que o paciente sempre recebe a máxima dose efetiva de quimioterapia, e ampliando a eficácia terapêutica. Os resultados obtidos foram excepcionais: após cerca de 5 anos de seguimento 47 pacientes encontravam-se livres da doença, 2 ainda apresentavam pequenos focos residuais de doença, 1 evoluiu com progressão após resposta inicial ao tratamento e 1 foi a óbito, resultando numa taxa de sobrevida global e livre de doença (SLD) de 93 e 97%, respectivamente.

Os dados deste estudo parecem dar subsídio ao otimismo de médicos e expectativas de pacientes em relação à evolução do tratamento do câncer nos últimos anos: com uma SLD de 97%, a cura parece cada vez mais próxima. O otimismo, porém, exige uma dose de cautela e realidade: há a necessidade de estudos randomizados, com uma amostra maior de indivíduos, que comparem este esquema com tratamentos convencionais, permitindo corroborar sua superioridade. Destaca-se ainda a toxicidade deste esquema: apesar da menor toxicidade em relação à radioterapia, 13% dos pacientes tiveram infecções associadas a neutropenia e 1 paciente, curado do linfoma, desenvolveu leucemia como consequência do tratamento e veio a falecer por conta desta (algo também observado em pacientes recebendo radioterapia). Enfim, apesar da falta de estudos randomizados e das toxicidades observadas, as taxas de sobrevida global e livre de doença próximas de 100%, num tratamento isento de radioterapia, parecem fazer do R-DA-EPOCH o novo padrão-ouro no tratamento dos linfomas não Hodgkin primários de mediastino.

 Por Bruno Duarte

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